Treinadores de Sofá #1 Hernâni Ribeiro, o mestre do algoritmo da GoalPoint

Treinadores de Sofá #1 Hernâni Ribeiro, o mestre do algoritmo da GoalPoint

O primeiro entrevistado da nova rubrica, é nada mais, nada menos, que Hernâni Ribeiro.
Ainda desconhecido para muitos, mas que certamente irão ouvir falar futuramente. Foi em tempos um elemento preponderante da equipa de Pesquisa Portuguesa do jogo e é actualmente um dos sócios do ForaDeJogo, mas ganhou mais notoriedade como criador do algoritmo da GoalPoint, que classifica os jogadores de 1 ao 10 ao bom estilo do Football Manager.

Hernâni e Aghahowa, um dos seus ídolos no velhinho CM
Hernâni e Aghahowa, um dos seus ídolos no velhinho CM

POP: Lembraste qual foi a primeira edição que jogaste e qual era o craque que nunca deixavas de comprar em todos os saves?

Hernâni: As minhas primeiras memórias ainda são do velhinho CM. O meu primo tinha o CM Itália e lembro-me de ir a casa dele só para o ver jogar e ficar fascinado com a hipótese de ficar a saber onde estavam a jogar alguns craques que eu conhecia do nosso campeonato e tinha perdido o rasto (sim, em 1993 eu não tinha internet e a própria internet não “sabia” tantas coisas como sabe agora). A partir daí ficou o bichinho, e mal tive o meu primeiro computador (em 1996) comprei o CM desse ano.
Ao contrário da maioria das pessoas, eu tentava não comprar sempre os mesmos jogadores, mas lembro-me muito bem do Sergen Yalçin me dar muitas alegrias.

POP: Passavas muitas horas a jogar? Os teus pais não te ralhavam devido a isso? Não te afectava os estudos?

Hernâni: Muitas mesmo. Lembro-me de fazer directas às escondidas, e isso nem sempre resultava bem na altura dos testes. O CD do jogo chegou a “desaparecer” algumas vezes…

POP: Tens paciência para andar a montar treinos, equipas de staff, definir o scouting da equipa, ou avançavas sempre rapidamente?

Hernâni: Sempre fui muito detalhista. O staff era das primeiras coisas que revolucionava quando chegava a um clube novo, porque a longo prazo isso tinha bastante importância na evolução dos jogadores e na capacidade para encontrar regens.

POP: Consideras-te um Ás da táctica no FM? Já conseguiste vencer tudo?

Hernâni: Mesmo que considerasse não dizia porque era falta de humildade. Gostava de estudar os adversários e tentar limitar os seus pontos fortes, filosofia que ainda hoje perdura fora do jogo, e tinha algum trabalho com as bolas paradas quando essa feature começou a ficar mais desenvolvida.
Quanto a conquistas, assim de repente lembro-me de ganhar uma Taça Asiática com a Indonésia, que é um grande feito. Vou dizer esta porque vais chegar à centésima entrevista sem que nunca ninguém tenha sequer tentado algo parecido.

POP: Preferes saves em equipas de topo ou começar em divisões inferiores e porquê?

Hernâni: Lower league forever. Eu até gostava de começar desempregado e esperar convites dos clubes mais fracos. Acho que a única fez que comecei um save numa primeira divisão foi na do Pais de Gales.

POP: Qual foi o teu save de maior duração e quanto tempo estiveste “entalado” na mesma divisão inferior, sem conseguir subir?

Hernâni: Diria que o máximo foram 15-20 épocas, e entalado na mesma divisão ficava com frequência. No último save demorei seis épocas a sair do CNS com o Amora. Eu chamo-lhe crescimento sustentado, mas há quem chame falta de jeito.

POP: Quantos anos passaram desde que jogaste pela primeira vez até entrares na equipa de pesquisa e como tal aconteceu?

Hernâni: Eu entrei na equipa de pesquisa em 2009 ou 2010, portanto terão passado mais de 10 longos anos…

POP: Ainda te lembras quais eram as tuas funções e por quanto tempo ficaste?

Hernâni: Eu coordenava a pesquisa de todas as divisões não profissionais, mais focado na 2ª Divisão B mas também nos principais clubes da extinta 3ª Divisão Nacional.
Foi um trabalho muito intenso que fiz com gosto durante dois anos, e orgulho-me de dizer que foi comigo que esses escalões começaram a ficar verdadeiramente “jogáveis”, no sentido em que os planteis estavam sempre actualizados e todos os jogadores começaram a ter pelo menos posições, habilidades e potenciais realistas. Sendo de Lisboa tentava ver o máximo de jogos possíveis ao vivo perto da minha área de residência, e fui muitas vezes ver jogos em casa de Atlético, Sintrense, 1º Dezembro, Real, Casa Pia, Oriental, e também alguns na margem sul como Sesimbra, Pescadores ou Fabril.

POP: És um dos sócios do ForaDeJogo.net. Suponho que ter a maior base de dados de competições nacionais ao teu dispor, ajudou muito nessa função, ou também recebias informações dentro da equipa de pesquisa que ajudavam para o ForaDeJogo?

Hernâni: O ForaDeJogo era uma ferramenta essencial do meu trabalho para o jogo. Aliás, a minha entrada para administrador do site dá-se sobretudo porque enchia a caixa de e-mail do site com correcções/sugestões/perguntas, e eles deixaram de ter paciência para me aturar e convidaram-me a ajudar a gerir a base de dados. A partir daí trabalhava para ambas as “causas” em paralelo, porque ambas eram mutuamente úteis uma à outra.

Hernâni Ribeiro encalhado no seu Amora
Hernâni Ribeiro encalhado no seu Amora

POP: Entretanto, entrada num novo projecto, a GoalPoint e a utilização estatística para “descobrir” talentos que escaparam ao “olhómetro”. A GoalPoint continua a dividir muito as opiniões devido à avaliação de jogadores com base estatística. A velha guarda desvaloriza por completo a utilização de números, tal como a base de dados do Football Manager continua a ser desvalorizada, apesar de ambas as plataformas, já contarem com inúmeros casos de jogadores referenciados para o estrelato, antes de se tornarem casos de sucesso na vida real. O que tens a dizer sobre isso?

Hernâni: Entendo o cepticismo até um certo ponto, porque eu próprio o tinha. No entanto, os números, se bem trabalhados, podem e devem ser uma ferramenta essencial em qualquer clube profissional que queira continuar a evoluir. O já imenso rol de jogadores que identifiquei através da estatística e vieram a ser certezas na realidade só mostram que o método é válido, talvez o mais válido de todos quando complementado com outros tipos de observação. Tal como no scouting mais tradicional, há bons e maus profissionais que cometem menos ou mais erros, mas até isso é um motivo para que se use a estatística como mais um complemento na altura de avaliar um jogador. Além de reduzir o erro naqueles jogadores já previamente identificados, permite poupar tempo na identificação de outros alvos, o que torna a análise visual bastante mais assertiva e direccionada para aquilo que falta perceber sobre o jogador.

POP: Achas que ambos poderiam ser complementares, para além de um excelente ponto de partida, para os clubes posteriormente averiguarem a capacidade real dos jogadores, através de observações in-loco?

Hernâni: Não tenho a mínima dúvida de que ambos os métodos são complementares. Hoje em dia a GoalPointPro trabalha com vários clubes e agentes profissionais em Portugal e é essa a filosofia que seguimos. Somos mais uma camada de informação a juntar aquela que quem nos procura já tem, e mais informação significa sempre melhores decisões, no futebol e em tudo na vida.

POP: Como ex researcher de Football Manager, não sentes curiosidade de recorrer ao jogo, quando algum jogador ainda desconhecido, sobressaí nos vossos cálculos de ratings?

Hernâni: Enquanto curioso nato, tenho sempre por hábito consultar a base de dados do jogo, lá está, como mais uma camada de informação que possa validar, ou não, a minha análise.

POP: Há dois anos que estavas na base de dados do jogo, mas sem clube, agora aparecerás no Sporting de Braga. Esperas um upgrade de atributos na nova edição do jogo?

Hernâni: A parceria com o Braga foi a mais visível ultimamente, mas na prática eu e a GoalPointPro trabalhamos com mais do que um clube em Portugal. Como o FM não permite que eu “jogue” por vários ao mesmo tempo podes-me deixar lá nesta versão (sobretudo se for com atributos jeitosos) mas o contrato tem que ser part-time. 😀

POP: Alguma feature ques gostarias de ver implementada no jogo?

Herrnâni: Nos últimos anos o tempo para jogar tem escasseado, mas pelo que vou acompanhando o jogo está cada vez mais completo e cada vez é mais difícil sugerir algo inovador. No entanto, como homem dos ratings, permite-me dizer que o algoritmo que atribui as notas de jogo aos jogadores podia melhorar bastante, pelo menos tendo em conta as últimas versões que joguei.

POP: Tens alguma história engraçada relacionada com o CM/FM?

Hernâni: O mais interessante é mesmo perceber o impacto que o jogo foi tomando na direcção da minha vida profissional. Creio que grande parte do que sou hoje se deve às muitas horas passadas a jogar quando era “puto”. Qualquer fã da saga tem como sonho passar a “jogar Football Manager na vida real” e, sem nunca ter tido isso como objectivo consciente, as coisas foram evoluindo num sentido em que efectivamente parte do que faço tem paralelo como o que fazia enquanto “manager virtual”. Não é uma história muito engraçada, mas pode ser inspiradora para alguns dos leitores.

Primeira edição que jogaste?
CM 97/98.

Edição favorita?
FM 2011.

Equipa favorita no jogo?
Havant & Waterlooville.

Jogador favorito no jogo?
Rolando Zárate, Kim Kallstrom, Julius Aghahowa.

Jogador mais sobrevalorizado da última edição que jogaste?
Talvez o Sterling, mas posso estar a confundir com a vida real.

Jogador mais subvalorizado?
Ricardo Pereira.

Hernani Ribeiro no FM2018
Hernani Ribeiro no FM2018

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