Pesquisa Portuguesa na Imprensa: Carlos Bessa entrevistado no Toques na Bola

Pesquisa Portuguesa na Imprensa: Carlos Bessa entrevistado no Toques na Bola

Mais uma entrevista hoje com o homem que influencia a minha e a vossa vida, nos tempos livres, no tempo dos PC`S, quem nunca se sentou a frente de um computador domingos a fio e tempos livres a jogar FM, a fazer de contas que somos o Mourinho, Guardiola, Klopp, Sarri, para mim acima de PES e mesmo de FIFA, sempre esteve o FM pela forma deliciosa com que se joga, com que se aventura num mundo que sempre sonhamos entrar, cada vez mais graças ao Carlos Bessa temos este enorme privilégio, que podemos entrar neste mundo cada vez mais estudado e cada vez mais detalhado.

Em nome do Toques de Bola, só tenho que agradecer ao Carlos e à restante equipa do FM portugal pelo serviço prestado, e dizer ao restante pessoal adepto do jogo que continuem a jogar porque como ele diz este “‘bichinho’ se desenvolve-se cada vez mais.”

Carlos Bessa no Museu do Futebol em Manchester
Carlos Bessa no Museu do Futebol em Manchester

Tb- Onde é que nasce esse ” bichinho pelo futebol “?

CB-Desde muito jovem que sempre fui um fã acérrimo de futebol! Lembro-me de passar sábados inteiros a ver jogos da Premier League e finalizá-lo ao ver um ou dois jogos da nossa Liga. Todo este prazer aliado ao ‘poder’ que tínhamos em conseguir ‘comandar’ quem víamos na TV no Football Manager (Championship Manager até 2004) e também encontrar novos craques como os que víamos na TV, fez com que este ‘bichinho’ se desenvolve-se cada vez mais até ao ponto de na escola o assunto de conversa ‘normal’ com os amigos ser….discussões sobre as táticas que usávamos; os feitos que conseguíamos (!); os novos craques que encontrávamos numa equipa da 2ª divisão do Brasil! Bons tempos…(risos)

Tb- Como se desenrolou a sua entrada para o FM e em que consiste a profissão de Head Researcher?

CB-Como um apaixonado que era (e sou!) pelo Football Manager, consoante os vários ‘saves’ que fazia com equipas diferentes, encontrava erros e atributos que não achava de todo adequados aos respetivos jogadores. Como sempre gostava de jogar da forma mais realista possível, consoante os erros que encontrava, criava a minha própria BD com as correções que achava por bem fazer, até que a certo momento (em 2010) procurei entrar em contacto com o responsável da BD de Portugal naquela altura (José Chieira) por forma a poder ajudar de forma ‘mais ativa’ a BD e assim conseguir colocá-la mais realista para todos os jogadores que tal como eu, usufruíam do FM por muitas e longas horas. E assim foi, após conseguir contactá-lo, passei a colaborar com ele enviando documentos que fazia com as correções que julgava que deveria ser feitas. Uma vez que sentia que nem todas as alterações eram transferidas para a BD, pedi para em 2012 integrar ‘diretamente’ a equipa, passando a fazer as alterações diretamente nas equipas que ele me delegou e assim garantir que o máximo de informações eram inseridas na BD.

E assim foi até….2015! Uma vez que o José Chieira é Scout Profissional do F.C. Porto e o tempo dele estava a ser cada vez mais escasso, convidou-me nesse ano para eu e o Bruno Gens Luís passarmos a liderar a equipa de Researching do Football Manager em Portugal. A nossa tarefa consiste em coordenar toda uma equipa de Assistentes/Scout’s que vamos angariando, além de garantir que todas as equipas jogáveis (e sem Assistentes) estejam o mais completas possíveis (a todos os níveis).

Tb- Acabas por ser um elemento de scouting, como tal existe o foco da análise, quais as vertentes que analisas, isto é analisas apenas o jogador como ser singular, o colectivo enquanto equipa ou em base a dinâmica da equipa onde o jogador está envolvido e o seu contexto?

CB-Uma vez que estamos a analisar o jogador para o Football Manager e não para um equipa que tem a sua própria dinâmica e que está inserida num respetivo contexto competitivo, não nos podemos deixar influenciar pelo coletivo ou pela dinâmica em que a equipa do jogador a avaliar está a atuar naquele exato momento para lhe traçar a avaliação. Procuramos sempre olhar para o jogador como ‘singular’, tendo sempre em consciência aquando o relatório o contexto competitivo em que ele está a competir naquele exato momento. A título de exemplo? Um Ponta-de-lança que chegue a Portugal vindo de uma 1ª Liga de Singapura em que tenha marcado 20 golos, não faz qualquer sentido o colocar como um portento de talento e um finalizador nato quando era algo expectável dadas as frágeis defesas e qualidade existente a que está exposto naquele contexto.

Tb- Uma pergunta que sempre tive: qual a forma como decifras os bugs ou invenções de observadores no caso do Tó Madeira que o jogo possa ter no futuro se a vossa primeira impressão do atleta não corresponder, dando como exemplos Hugo Pinheiro, Nikiforenko, Tsigalko no CM 01/02?

CB-De facto, Tó Madeira é e será sempre encarado como um figura vintage da era Championship Manager! No entanto, lamento desiludir os verdadeiros fãs deste matador intemporal mas…mais nenhum caso idêntico poderá acontecer. Ao longo dos anos a Sports Interactive foi desenvolvendo ferramentas na própria BD que nos permite encontrar com um certa facilidade jogadores com capacidades «adulteradas» que possam ter sido criados pelos nossos assistentes, como foi o caso dele.

Já os casos de jogadores em que apostámos e que acabaram por ‘desiludir’ e não desenvolveram da forma expectável, além da visão que cada um tem sobre uma hipotética estrela ser sempre subjetiva à forma como cada um analisa, temos de estar cientes que é algo perfeitamente compreensível e susceptível de acontecer: todos eles estão expostos a uma série de circunstâncias e envolvências em que além de não serem visíveis a ‘olho nú’, nem todos têm a mesma capacidade para ultrapassar possíveis barreiras ou dificuldades que lhes possa aparecer pelo caminho: se fosse assim ‘tão fácil’, não faltavam estrelas não é verdade?

Tb- Quantas horas dispensas por dia para o FM?

CB-A jogar Football Manager…Posso afirmar que são muito poucas!! (Risos) Posso assegurar que uma semana antes de entregar a base de dados à SI (existem 7 deadlines por ano), saio do meu trabalho full-time e acabo a trabalhar por mais quatro, cinco ou seis horas por dia nisso. Já nas fases em que temos a BD connosco, trabalho em média 30 horas por semana.

Tb- Quantos jogos vês ao vivo em média por semana e como é a vossa relação com os clubes?

CB-Ao vivo costumo ver entre 1 a 3 jogos por fim-de-semana. Já através de vídeo (por ser a forma mais fácil para visualização de jogadores)…já perdi a conta à quantidade de jogos que vi! (risos)

Quanto à relação existente com os clubes…É bastante diminuta. A vasta maioria não disponibiliza as informações da forma desejável e expectável pelo que a nossa ‘bóia de salvação’ acaba por ser sempre a obtenção de informação pelas diversas outras vias existentes (Ex: comunicação social).

Tb- Já houve algum verdadeiro flop por quem desses tudo na hora que o viste pela primeira vez, pela margem de evolução que precisaste?

CB-Não tenho ninguém que possa rotular como ‘verdadeiro flop’, até porque antes de apontarmos uma grande margem de potencial a algum miúdo procuramos conhecer ‘um pouco mais’ dele: não o fazemos apenas através de um ou dois jogos que possa ter corrido muito bem. No entanto, posso dizer um jogador em particular que, apesar de atualmente a carreira não estar a ser de todo má, julguei que seria alguém para vôos mais altos: Bernard Mensah (atualmente no Kasimpasa por empréstimo do Atl. Madrid).

Tb- Hoje o jogo é consumido por pais e filhos, quais as críticas mais fortes que já recebeste?

CB-Felizmente elas não são muitas! (risos). No entanto, por melhor que a BD se torne de ano para ano, logicamente, não conseguimos agradar a todos e em todas as épocas é normal que haja pessoas que critiquem a base de dados. Nunca vamos conseguir ter opiniões consensuais, porque é futebol: um assunto que qualquer pessoa discute.

Tb- Fazes o trabalho apenas em Portugal, como achas que o clima “anti respiratório” do nosso futebol atinge o amante do jogo?

CB-Apesar das ‘guerrinhas’ da realidade atual existente no futebol nacional ser algo totalmente desnecessário e deplorável, não acho que isso atinja de todo o amante do FM. Bem pelo contrário, ao jogarem-no acabam por imergir num ‘mundo à parte’ em que as ‘guerrinhas’ existentes ‘lá fora’ criadas por quem faz questão de ser capa de jornal dá lugar ‘naquele mundo’ a batalhas pela obtenção do jogador que é disputado por ‘meio mundo’ ou por levar a equipa da terra à Primeira Liga.

Tb- Atualmente Tu e o Bruno tratam só do futebol em Portugal ou a vossa visão neste momento já têm que ser mais alargada?

CB-Como Chief Scouts a nossa função é a de trabalhar o melhor possível a BD dos jogadores que atuam em PORTUGAL. No entanto, aquando chegada de reforços estrangeiros ao nosso País por diversas vezes recorremos à visualização de jogos feitos por eles noutras ligas enquanto não ganham lugar na equipa em que ingressou para assim lhes podermos previamente conhecer e os retratar na BD.

Tb- Com o estudo que fazes consegues decifrar alguns jogadores que não estejam vistos ao olho comum prestes a explodir em 1/2 anos?

CB-É sempre um risco apontarmos ‘futuras grandes estrelas’ e ainda acrescentarmos certezas na sua ‘explosão’, uma vez que todas elas atravessam uma idade em que tudo acontece e só aqueles que mantêm o foco e dedicação total em prol do objetivo (futebol ao alto nível) consegue ultrapassar com sucesso todas as ‘ondas’ que irão enfrentar ao longo deste processo. Excluindo jogadores mais ‘conhecidos’ como o Fábio Silva ou o Úmaro Embaló e não me focando apenas em 1/2 clubes, estas são as minhas escolhas dos jogadores a atuar nos Sub-17:

– Tiago Matos (F.C. Porto); Tiago Ribeiro (F.C. Porto);

– Tiago Gouveia (S.L. Benfica); Gonçalo Ramos (S.L. Benfica);

– Félix Correia (Sporting C.P);

– Eduardo Ribeiro (S.C. Braga);

Tb- Os olheiros dos clubes grandes entram em contacto convosco para a troca de ideias?

CB-Falando especificamente dos clubes grandes, nunca me sucedeu uma situação do género, o que encaro de forma natural uma vez que são departamentos de observação organizados e estruturados. O que é mais recorrente de acontecer é receber mensagens por partes de agentes/agências ou clubes de divisões inferiores à procura de informações/jogadores.

Tb- Qual a opinião a casos como o do Firmino e de Villas-Boas que se soube que tinha sido descoberto ou catapultado pelo FM respectivamente?

CB-Não tenho quaisquer dúvidas que existirão outros casos semelhantes ao do Roberto Firmino, mas que simplesmente não foram tão divulgados como este. A mediatização destes casos de sucesso só faz credibilizar ainda mais a BD que é tão afincadamente construída pelos Scouts de FM de todo mundo. E a realidade é que o Football Manager pode efetivamente ser usado também como uma ferramenta de apoio ao Scouting, uma vez que as observações que são feitas em prol da BD são feitas olhando de forma singular para o jogador (e respetivo contexto competitivo), pelo que se o mesmo tiver determinadas características (que o hipotético clube procura) ou potencial de futuro, as mesmas serão transferidas para a BD do jogo.

Tb- O que sentes ao entrar na FNAC e ver exposto trabalho teu?

CB-Primeiro de tudo, devo vincar de que é um trabalho de toda uma equipa que nos ajuda imenso nesta árdua tarefa de melhorar e fazer evoluir ano-após-ano e cada vez mais a BD de Portugal, pelo que acredito que eles – tal como nós – têm um orgulho enorme em sentir que naquela caixinha se encontra um ‘pedacinho de nós’: horas de trabalho em prol de duas paixões que une todos os que em frente a ela param: o FM e o Futebol.

Tb- Sentes o BrasFoot, OSM como concorrência? Se não, qual a fonte de motivação para cada vez mais e melhor como está a ser feito?

CB-Apesar de serem jogos que têm uma ideia ‘base’ comparável à do Football Manager, a forma como ambos estão estruturados além do público-alvo que desejam atingir acabam por não se revelar de todo como concorrência feroz até pela dimensão que este último atingiu comparavelmente ao BrasFoot, OSM e até mesmo o Championship Manager que nunca conseguiu se impôr no mercado após a divisão interna que existiu. No entanto, apesar da concorrência ser diminuta, a ambição que temos em querer ter uma BD em Portugal cada vez mais realista, expansiva a todos os níveis (na inserção do máximo de dados biográficos disponíveis, criação de staff técnico/médico, maximização de plantéis) e que nos aproxime cada vez mais da realidade é o combustível que necessitámos – e que usamos! – para a tentar melhorar ano-após-ano a nossa BD.

Tb-Como trabalhador da área virtual/digital achas que é por aí que o mundo inclina cada vez mais?

CB-Sem dúvida! O futuro é isto mesmo: é a realidade virtual, são as tecnologias ao serviço da rotina diária de todos nós. Cada vez mais usámo-la para as situações corriqueiras da nossa vida diária e a tendência é que passe a ter cada vez mais peso nas nossas vidas, que por sua vez cada vez mais necessita de soluções que nos permitam acesso simples, rápido e cómodo às nossas necessidades.

Tb-Não falando só do teu trabalho, se puderes sair um pouco da tua profissão, acreditas que a nossa sociedade de hoje é mais consumista e mais nervosa muito por causa do meio virtual onde no caso do FM e dos outros jogos desportivos mas muito de uma forma global está a sede do ganhar faz com que os miúdos de hoje sejam miúdos depressivos?

CB-Não acho que se deva considerar a contínua evolução tecnológica como única justificação para a forma como as gerações mais novas estão a ser ‘moldadas’. Apesar de concordar que têm determinadas influências devido à forma como conseguem ter acesso fácil a ‘um pouco de tudo’ e às próprias redes sociais (que vieram trazer coisas positivas….mas concordo que ‘influenciam’ também determinados tipos de comportamento em pessoas de qualquer faixa etária!), acredito piamente que uma parte importante e maioritária do desenvolvimento da personalidade de cada miúdo está efetivamente nos comportamentos que os Pais/Familiares (e até mesmo de ‘todos nós’ enquanto sociedade) que os acompanham no crescimento desde bebés: se todos nós pararmos um bocadinho para pensar sobre este assunto, verificamos que por diversas situações assistimos na nossa vida corriqueira a situações lamentáveis por parte de adultos junto de crianças/miúdos. Anos mais tarde, simplesmente colhemos os ‘frutos’ desses maus exemplos que são dados em idades ‘críticas’.

Tb-A pergunta anterior vêm pela sede de ser melhor virtualmente mas por outro lado o mundo virtual de hoje com jogos como o tão badalado Baleia Azul faz da nossa sociedade, uma sociedade de engano?

CB-Caracterizo antes por: estão a desenvolver-se gerações que cada vez menos sabem viver em sociedade. A cada dia que passa assistimos a situações escandalosas por parte de quem será…o nosso futuro! Tratando-se isto de uma bola de neve (uma vez que serão ‘futuros Pais’), não dá que pensar sobre como será daqui a uns bons anos!?

Tb- Que surpresas podes desvendar para o FM 19?

CB-Dada a altura em que estamos, isso terei de manter nos ‘segredos dos deuses’ (risos). Já estão algumas ideias definidas do que irá ser criado para a próxima edição e muitas outras ainda estão a ser equacionadas.

Tb- Consegues ter o tempo para a família ou o jogo obriga-te a perderes momentos importantes?

CB-Já ouvi falarem em «Vida Social». O que é isso?! (risos). Os momentos importantes, faço sempre questão de marcar presença, seja em que altura for. No entanto, assumo que em determinadas alturas acaba por ser um ato de gestão quase que…heroico! (risos) Este trabalho tem fases, sendo que o ‘pico’ de edição da base de dados é entre os Meados de Maio e o Final de Setembro e na atualização de Inverno é entre Início de Dezembro e Início de Fevereiro. Nestes meses é extremamente complicado conciliar a nossa vida social com a edição de base de dados. Este hobbie leva-nos uma grande parte do tempo, o que aliado ao facto de fazermos tudo isto por ‘amor à camisola’, pela paixão que temos pelo Football Manager e pela área do Scouting, tendo ainda o nosso trabalho full-time a levar-nos por si só uma grande parte do tempo durante a semana, acabamos por ficar muitos fins-de-semana a trabalhar em prol do jogo. Mas como refere um ditado bem popular: Quem corre por gosto não cansa, não é verdade?

Tb- O que te diz a tua alma?

CB-Diz-me que…a forma como me apaixona analisar jogadores e procurar conhecer novos talentos, significa que devo continuar focado e a lutar de forma persistente por uma ‘oportunidade de carreira’. Aliar duas paixões (Scouting e Football Manager) em prol de um objetivo (a evolução contínua da BD) faz sentir-me feliz, no entanto, não escondo que adoraria que este hobbie se torna-se no meu dia-a-dia. 🙂

Por fim, obrigado ao Blog ‘Toques de Bola’ pela oportunidade dada por poder falar e abordar tudo acerca de um jogo que tanto amámos e que tantos adeptos tem por este Portugal fora…! E claro, a toda a equipa que compõe a Pesquisa Oficial Portuguesa pelas horas que investem junto de nós em prol deste maravilhoso jogo que é o Football Manager, um bem-haja a todos vós!

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