Pesquisa Portuguesa na Imprensa: Carlos Bessa e Pedro Costa entrevistados pelo JN

Pesquisa Portuguesa na Imprensa: Carlos Bessa e Pedro Costa entrevistados pelo JN

Já observaram mais de 1000 jogadores e viram centenas de jogos de futebol, ao vivo e na televisão. São mais de 30 horas todas as semanas, sem qualquer euro recebido, a classificar jogadores de todos os escalões e divisões para o Football Manager, um dos principais simuladores de treino de futebol para computador.

Carlos Bessa e Pedro Costa têm 23 e 24 anos, respetivamente, e são observadores digitais para o videojogo.

FOTO Rui Oliveira/Global imagens
Carlos Bessa e Pedro Costa Football Manager
Gondomar, 04/12/2016 – Carlos Bessa e Pedro Costa são “olheiros” de futebol digital para o jogo championship manager. Hoje estiveram assistir ao jogo do Gondomar vs. Sousense no estádio S.Miguel em Gondomar
(Rui Oliveira / Global Imagens)
Carlos Bessa e Pedro Costa foram assistir ao Sousense-Gondomar, do Campeonato de Portugal Prio

O líder dos olheiros portugueses

É na sala de estar da sua casa, em Sobrado, depois de um dia de trabalho, que encontramos Carlos Bessa. Está há sete anos a colaborar com a equipa de pesquisa do jogo em Portugal e desde 2015 lidera a equipa de observadores, que conta com mais 50 pessoas.

“Depois de muitos anos como jogador, comecei a colaborar com o José Chieira, em 2010”, refere Carlos. José Chieira é scouter profissional. Colabora regularmente com o F.C. Porto e já trabalhou com o Sporting CP e com o Panathinaikos, da Grécia.“Em 2015 deixou de trabalhar para o Football Manager (FM) e convidou-me para assumir a tarefa de líder”, explica o jovem.

Desde então, a vida de Carlos divide-se entre o trabalho como administrativo e o FM. Com a televisão sintonizada nos canais desportivos e de computador ao colo, explica que as tarefas inerentes à função de líder lhe tiram cerca de 30 horas por semana. “Eu não usava óculos e agora, por passar muitas horas a ver televisão e à frente do computador, tenho que os usar”, conta.

Os blocos de notas, que tem sempre ao seu lado, preenchidos com muitos sublinhados, táticas e nomes de jogadores desconhecidos da maioria das pessoas, são o reflexo dos inúmeros jogos que vê.

 

Ao vivo ou na televisão, são quase dez as partidas que assiste em cada fim-de-semana e os números podem duplicar nas alturas de maior trabalho.

“Ver o maior número de jogos é o melhor ensinamento que podemos ter”, comenta, explicando que é na pré-época, antes do lançamento do FM, que mais trabalho tem. Em Portugal, existem cerca de 50 pessoas, mas já foram quase 100, que fazem parte da equipa de pesquisa da Sports Interactive, a empresa responsável pelo desenvolvimento do FM.

Tarefas de um olheiro digital

Carlos e Pedro atribuem a pontuação aos jogadores classificando diferentes atributos. São observadores para o FM e o seu trabalho não tem qualquer relação com os clubes reais. As capacidades técnicas, táticas e psicológicas são avaliadas e submetidas apenas no editor do jogo.

Apesar de serem dados para o jogo, as semelhanças com a realidade são evidentes. Soube-se há poucas semanas que o Hoffenheim comprou o jogador brasileiro Roberto Firmino depois de o descobrir no jogo. Lutz Pfannenstiel, do scout do clube alemão, contou a história numa entrevista à rádio TalkSport. Firmino foi, depois, vendido ao Liverpool e é hoje um dos destaques da Premier League.

Para além de prestar uma atenção particular às equipas de divisões inferiores, Carlos Bessa tem que coordenar, com a ajuda de outro responsável, tudo o que é feito pelos observadores. “Só em Portugal há mais de 17 000 perfis de jogadores e staff e temos que evitar que aconteçam mais casos como o de Tó Madeira”, explica o head researcher.

Tó Madeira foi um verdadeiro fenómeno junto da comunidade FM. O responsável por acompanhar os jogos do Gouveia criou um jogador falso, com atributos de fazer inveja aos melhores craques do mundo. Estávamos em 2002 e vários clubes contataram a equipa do distrito da Guarda. Hoje, isso seria impossível de acontecer: “Eu tenho que rever muito bem tudo aquilo que os assistentes enviam porque este é um jogo que é seguido em todo o mundo”.

FOTO Rui Oliveira/Global imagens
Pedro Costa e Carlos Bessa Football Manager
Gondomar, 04/12/2016 – Carlos Bessa e Pedro Costa são “olheiros” de futebol digital para o jogo championship manager. Hoje estiveram assistir ao jogo do Gondomar vs. Sousense no estádio S.Miguel em Gondomar
(Rui Oliveira / Global Imagens)

 

Pedro Costa vê dois a três jogos ao vivo por semana. “Os amigos estão sempre a perguntar quais são os melhores”.

Estão menos de 500 pessoas no Estádio São Miguel, em Gondomar. A equipa da casa defronta o Sousense, para o Campeonato de Portugal Prio (CPP), e grande parte dos jogadores que entram em campo nunca apareceram na televisão. Mas, são tudo menos desconhecidos para Pedro Costa, que veio desde Oliveira de Azeméis para ver Kiko e Tiago Gomes jogarem. “Eu tenho que ver os jogos e tirar notas sobre os jogadores, os seus atributos técnicos, psicológicos e táticos para depois transpor para o editor do jogo”, explica ao JN o professor de educação física.

É um dos primeiros a chegar ao estádio, para ficar na bancada central, onde consegue ver as movimentações táticas e até o aquecimento dos jogadores: “Eu gosto de vir para os jogos cedo e aponto no caderno as informações das equipas”.

De smartphone em punho, para “ver os dados dos atletas menos conhecidos”, recorda como chegou à equipa de observadores do FM. “Eu faço parte de um fórum e reparei que estavam à procura de um colaborador. Como sempre gostei de jogar FM e sabia que as equipas de escalões mais baixos estavam desatualizadas, decidi candidatar-me”, refere.

A aventura começou há dois anos e todos os fins-de-semana vai ao estádio ver um jogo da série C do CPP. “Vejo dois a três ao vivo todas as semanas, mais os que passam na televisão. Até a minha namorada vem comigo ao futebol”, brinca o jovem que nos conta que os amigos “estão sempre a perguntar quais os melhores atletas para comprar” no FM. “Eles sabem que eu conheço os jogadores que ninguém conhece e que são baratinhos. Às vezes, lá tenho que lhes dizer uns nomes”, atira.

O jogo já vai a meio da primeira parte e o pequeno caderno preto que Pedro tem na mão é reflexo das alterações que os treinadores fazem ao posicionamento dos jogadores em campo. “Durante os jogos tenho que fazer muitas mudanças. Estas equipas são mais pequenas e há pouca informação sobre elas”, comenta.

Apesar de se dedicar principalmente aos escalões secundários do futebol português, “que têm menos mediatismo que a Liga NOS”, o observador do FM confessa que “é muito gratificante ver jogadores descobertos nos escalões mais pequenos a vingarem nos clubes da primeira”.

E em Portugal não faltam casos de sucesso, entre as 1 150 equipas que marcam presença no jogo. “O João Amaral estava no Pedras Rubras no ano passado e este ano é titular no Vitória de Setúbal. No jogo já tinha boa classificação”, explica-nos, recordando os primeiros jogos que viu de Pizzi, médio do SL Benfica, quando ainda jogava no Sporting da Covilhã: “Não me surpreende em nada o sucesso que está a ter”.

Carlos Bessa e Pedro Costa Football Manager
Gondomar, 04/12/2016 – Carlos Bessa e Pedro Costa são “olheiros” de futebol digital para o jogo championship manager. Hoje estiveram assistir ao jogo do Gondomar vs. Sousense no estádio S.Miguel em Gondomar
(Rui Oliveira / Global Imagens)

Motivados por um futuro no futebol

A rede de assistentes em Portugal é grande e os contatos são feitos, principalmente, através da Internet. Apesar das longas horas de conversa no grupo que foi criado no Facebook, Carlos e Pedro encontram-se pela primeira vez no jogo da jornada 12 do CPP. É através das redes sociais que os observadores portugueses coordenam as suas tarefas.

NA BASE DE DADOS DO FOOTBALL MANAGER

+ 13.800

JOGADORES (TODAS AS NACIONALIDADES; A ATUAR EM PORTUGAL)

+ 1150

CLUBES (PORTUGUESES)

+ 760

ESTÁDIOS (PORTUGUESES)

+ 60

JOVENS PROMESSAS (IDADE MÁXIMA: 19 ANOS) COM POTENCIAL DE VINGAR NOS 3 GRANDES

+ 18

JOVENS PROMESSAS (IDADE MÁXIMA: 19 ANOS) COM POTENCIAL DE VINGAR EM COLOSSOS EUROPEUS

“Isto é um trabalho muito sério. Não recebemos qualquer valor monetário da SI, mas é como uma segunda profissão”, refere Carlos Bessa. “A minha grande motivação é o gosto por futebol e a vontade de vingar neste mundo”, acrescenta Pedro, que também é treinador das camadas jovens da UD Oliveirense.

Os dois observadores olham para a experiência adquirida no jogo como uma oportunidade para no futuro entrar no futebol profissional. “O meu objetivo passa por levar este trabalho digital para um nível mais a sério. Esta é a minha grande paixão e o meu maior sonho”, revela Carlos Bessa, que ve o seu objetivo partilhado por Pedro: “Se daqui a dez anos estivesse a trabalhar numa equipa técnica profissional ou como observador, ficava muito contente”.

Ao longo do percurso, são vários os jogadores que surpreenderam Carlos e Pedro. “O Bernard, do Vitória de Guimarães, foi uma das principais desilusões. Tinha boa pontuação no jogo, mas não o provou na realidade”, comenta Carlos. Por outro lado, “foi com surpresa que vimos a ascensão do Xeka, do SC Braga”, acrescenta Pedro.

O melhor onze do Campeonato de Portugal Prio
AS ESCOLHAS DOS OLHEIROS FM PORTUGUESES
O onze das promessas portuguesas do FM
AS ESCOLHAS DOS OLHEIROS FM PORTUGUESES

“Eu considero-me um olheiro digital”

FOTO Rui Oliveira/Global imagens
Carlos Bessa e Pedro Costa football manager
Gondomar, 04/12/2016 – Carlos Bessa e Pedro Costa são “olheiros” de futebol digital para o jogo championship manager. Hoje estiveram assistir ao jogo do Gondomar vs. Sousense no estádio S.Miguel em Gondomar
(Rui Oliveira / Global Imagens)

Foi a primeira vez que Pedro Costa e Carlos Bessa se encontraram num estádio

Para os dois, não há dúvidas da proximidade daquilo que fazem com as tarefas que são desenvolvidas pelos olheiros profissionais. “Um olheiro digital tem que identificar um jogador e avaliar as suas capacidades, para depois inserir no editor do jogo. Um profissional faz exatamente isso, mas para um clube”, diz Pedro.

Ns estádios, os dois percorrem os mesmos caminhos e sentam-se mesmo ao lado dos observadores dos clubes e até de alguns dirigentes e treinadores. O contato com o mundo real fica, assim, facilitado. Carlos Bessa afirma que nunca foi contatado por algum clube no sentido de melhorar as notas dos jogadores no FM, mas confirma que já foi abordado por um empresário. “Estava a ver um jogo do Paços de Ferreira, na pré-temporada, e vieram falar comigo para me avisar que havia um jogador que estava a despontar”, conta. “O jogador em questão tem boa pontuação no jogo, mas é porque é mesmo bom. Não é pelo empresário”, defende o responsável pela observação em Portugal. “Pelo trabalho que tenho e pelo que faço, considero-me um olheiro digital”, afirma de forma assertiva Pedro.

O Presidente da Associação Nacional de Agentes de Futebol (ANAF), Artur Fernandes, olha para o fenómeno do FM com cautela, separando as águas entre aquilo que é o trabalho dos profissionais e o que é feito de forma lúdica. “A observação dos clubes tem uma base mais qualificada, de acordo com parâmetros estabelecidos pelo direção técnica e diretiva”, comenta. Reconhecendo que a base de dados do jogo pode ser utilizada para “descobrir jogadores”, tal como “qualquer ferramenta de trabalho”, explica que “não deve ser feito de forma primordial”. Porém, o empresário, que há mais de dez anos coordena os destinos da ANAF, admite que a exposição alcançada através do jogo “poderá ajudar a uma entrada facilitada”, mas a “qualidade é que definirá quem terá uma carreira”.

Texto originalmemente publicado em JN

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