Pesquisa Portuguesa na Imprensa: Coordenador Bruno Gens entrevistado na Visão de Mercado

Pesquisa Portuguesa na Imprensa: Coordenador Bruno Gens entrevistado na Visão de Mercado

O Football Manager é um dos vídeojogos com mais adeptos no Mundo e até influenciou André Villas-Boas, que hoje em dia é um dos 3 técnicos mais bem pagos da actualidade, a seguir a carreira de treinador. Aproveitando o lançamento da edição do Football Manager 2017, o Visão de Mercado entrevistou Bruno Gens, que juntamente com Carlos Bessa, é um dos responsáveis pela coordenação de tudo o que sucede no nosso país, para nos dar a conhecer como tudo funciona.

 

É o coordenador da base de dados do Football Manager em Portugal. Como é que passou a integrar a equipa do jogo?

Em primeiro lugar, obrigado pela entrevista e a atenção dada ao jogo, segundo, não sou o, sou um dos dois coordenadores da base de dados Portuguesa. O Carlos Bessa (outro coordenador) também desempenha similar cargo.
Como passei a integrar, bem sempre fui bastante crítico das bases de dados Portuguesas, não só por constantemente ver jogadores com dados errados, ou a maioria dos jogadores do 3.º escalão em falta, mas também por não darem valor ao jovem Português.
Raramente encontravam-se jovens jogadores de qualidade na base de dados Portuguesa, então, decidi mostrar o meu descontentamento e passei a reportar tudo directamente à Sports Interactive.
Dois anos depois convidaram-me a integrar a equipa de pesquisa. Primeiramente em bases de dados lusófonas (eu assistia regularmente ao Girabola(RTP África) e seguia quanto possível os outros campeonatos dos PALOP).
Depois convidaram-me para coordenar metade do CNS, por fim em Maio de 2015 fui convidado pelo José Guilherme Chieira, a quem só tenho de agradecer pela oportunidade, para assumir o cargo de coordenador, em conjunto com o Carlos Bessa, que também já fazia parte da equipa de pesquisa.

Em detalhe, em que consiste o seu trabalho?

O trabalho de um coordenador consiste em montar uma equipa harmoniosa, onde todos lutem pelo mesmo objectivo, o de proporcionar a melhor base de dados possível aos amantes da saga Football Manager.
Por essa razão, a recruta é uma das tarefas fundamentais, de seguida tratamos de todos os detalhes de jogadores, mantemos planteis e sta”s actualizados, e os demais dados gerais que estão no jogo, incluindo regras das ligas ou árbitros.
Avaliar/quantificar os jogadores em números com base em observações ao vivo, não é mais que uma das nossas muitas tarefas, mas obviamente a mais difícil e visível delas.

 

Como é que o FM consegue articular uma rede de observadores presente em quase todos os países e em inúmeras divisões secundárias?

Muita coordenação e tarefas bem definidas com objectivos claros por cada fase da pesquisa.
Depois é necessário que o coordenador de cada escalão hierárquico seja alguém presente e ajude quem necessita, por muito pequena que seja a dúvida. Os researchers de todos os países também estão sempre em permanente contacto de forma a diminuir assimetrias existentes no jogo.

 

Quais são as grandes novidades da nova edição?

As grandes bandeiras desta edição são uma versão x64 que permite correr o jogo de forma mais rápida. A introdução do painel social, que na prática é um twitter dentro do Football Manager, onde podemos acompanhar a evolução das opiniões de adeptos sobre o desempenho dos jogadores e treinadores, ou mesmo saber em primeira mão rumores de transferências e o que acham os adeptos delas.
Também novos cargos foram adicionados ao jogo. Os cientistas desportivos que pertencem ao departamento médico do clube e ajudam a evitar e reduzir a duração de lesões.
No departamento de observação, aparecerem os Analistas de Dados, que através de um aumento e melhoramento da análise estatística no Football Manager, vão agora expor no antes e pós jogo, quais os jogadores/sectores dos nossos sistemas que necessitam alterações ou quais estão em bom nível.
Isto tudo a juntar ao limar de arestas e aperfeiçoamento do que já estava feito, através do ênfase dado ao desenvolvimento da inteligência artificial do jogo, o que permitiu um aumento significativo de opções para cada decisão a ser tomada, quer no 3D, quer em transferências ou opções tácticas dos treinadores.

 

Muitas vezes é referido que é impossível quantificar o futebol, que não se consegue exprimi-lo em toda a sua essência através de números. Ora, o que o FM faz é, justamente, definir parâmetros de análise a um jogador e dar-lhes pontuações nesses mesmos parâmetros. Como é que passa aquilo que vê num campo para o jogo?

Sensibilidade é a base de tudo. Claro que temos guias de valores para cada divisão (para não serem seguidas cegamente) e cada researcher terá a sua dose de subjectividade na avaliação de determinado jogador, mas é para isso que gostamos de debater em equipa, se houve sub ou sobreavaliação nas nossas observações.

 

Ainda na sequência da última pergunta, é possível quantificar atributos mentais?

São mais difíceis de se avaliar, porque requerem um acompanhamento prolongado de tempo, mas uma das razões das equipas de pesquisa serem grandes é para haver um conhecimento detalhado de cada jogador que se avalia. Para incrementar o realismo na simulação é necessário reproduzir todas as características de cada jogador, não só dentro do campo mas também fora dele.

 

As vossas avaliações aos jogadores mais jovens são muitas vezes discutidas, quer pelo seu acerto quer por alguns “falhanços” históricos. Tendo em conta a dificuldade de projectar a carreira de um jovem que tem hoje 17 anos, que factores tentam colocar nessa ponderação?

 Ninguém é perfeito. Por um ou outro factor, todos nós cometemos erros de avaliação. Por cada contratação acertada, os clubes tendem a falhar num determinado número de outras contratações apesar de terem acesso a mais informação e ferramentas de trabalho do que nós os researchers
Mesmo conhecendo perfeitamente cada jogador, e como reage aos diferentes contextos que enfrenta, não há uma formula cientifica que garanta sucesso a 100%. Poderão sempre haver novos obstáculos (incluindo treinadores) ou eventos que influenciarão o seu desenvolvimento como jogador.

 

Está o mundo dos jogos virtuais a afectar o futebol real?

Gostaria de pensar que sim. Porque não ser usado para complementar o trabalho de observação? Espero que haja o bom senso de não usar exclusivamente os video jogos como método de observação de jogadores, mas de certo que é um excelente complemento.

 

Soube de algum jogador que tivesse tido conhecimento da sua avaliação do jogo e tenha ficado descontente?

O Diogo Jota quando jogava no Paços de Ferreira! Mas sempre na brincadeira, tinha por hábito perguntar-me como iriam estar os atributos dele e por vezes dizia que determinado atributo deveria ser superior. E diga-se com razão.

 

Dado o seu conhecimento de tantos jogadores de diversas equipas, costuma ser contactado por equipas que precisam de informações sobre certos jogadores?

Em Portugal o interesse é quase nulo, se bem que cada vez mais há interesse no nosso trabalho devido à atenção dada às divisões inferiores, o que

anteriormente (antes da nossa equipa liderar o projecto) era bastante fraco. Em Inglaterra o interesse é muito maior, por exemplo este ano fomos convidados pelo departamento de scouting do Manchester City a ir ao encontro deles, e demos a conhecer os nossos métodos de trabalho e vice-versa.

 

Flash VM

 Qual foi para si, até hoje, a melhor edição do FM?

CM 99/00, em termos de base de dados Portuguesa, sem dúvidas o FM2017

Jogador que se orgulha mais de ter “descoberto” (colocou-o com um grande potencial no jogo quando estava num patamar competitivo inferior  e  depois, na vida real, teve uma carreira de bom nível)?

Renato Sanches.

O seu maior “falhanço” na avaliação de um jogador?

Ainda não estive tempo suficiente como coordenador para haver falhanços, mas talvez o Bernard (Vitória SC) apesar de estar a tempo.

Qual o melhor jogador do mundo para si?

Messi

Qual o melhor treinador do mundo para si?

Pep Guardiola

Filme preferido?

Into the Wild; Português Alice do Marco Martins.

Livro preferido?

The Nowhere Men de Michael Calvin.

 

Entrevista originalmente publicada em Visão de mercado

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