Quantos de nós já passámos uma madrugada inteira agarrados a um save e pensámos: “se houvesse um Mundial disto, eu ia lá”? Pois bem, aconteceu. Entre 28 de agosto e 1 de setembro de 2024, Liverpool recebeu o primeiro Mundial oficial de Football Manager. E sim, Portugal esteve lá.
Liverpool, cinco dias de FM ao mais alto nível
O nome oficial é comprido, FIFAe World Cup 2024 featuring Football Manager, mas a ideia era simples: juntar os melhores treinadores de sofá do planeta, sentá-los no Exhibition Centre Liverpool e ver quem mandava. Eram 20 treinadores de 19 países (Inglaterra, como anfitriã, levou dois), cada um com o seu adjunto ao lado, a lutar por um prémio total de 100 mil dólares. Jogou-se no FM24, e foi a primeira vez que a FIFA trocou o futebol “jogado” por um jogo de gestão no seu Mundial de esports.
O primeiro dia foi de pré-temporada. Seguiram-se três dias de fase de grupos, uma temporada completa por dia, e tudo se decidiu a 1 de setembro. Pelo meio ainda houve direito a Arsène Wenger como embaixador, John Terry a trocar ideias com os jogadores e Sam Allardyce, sim, o Big Sam, como apresentador convidado. Difícil pedir melhor.
Como se chega a um Mundial de FM?
Cada federação escolheu o seu representante à sua maneira. Algumas, como a Alemanha, a Indonésia, a Polónia ou a Turquia, fizeram qualificações online na plataforma da FIFAe. Outras, como a França, a Espanha ou a Noruega, preferiram escolher internamente.
Por cá, a Federação Portuguesa de Futebol confirmou a presença e houve apuramento online. Quem escolheu foi Francisco “Quinzas” Cruz, o selecionador, que olhou para o que se passou nas qualificações e apostou em Licá. E não o deixou ir sozinho: foi com ele para Liverpool como adjunto.
As regras do jogo
Na fase de grupos, os 20 treinadores foram divididos em quatro grupos de cinco. O detalhe interessante é que, dentro de cada grupo, toda a gente treinava o mesmo clube, nas mesmas condições: o Yokohama F. Marinos no Grupo A, o Brighton no B, o Sporting no C (sim, havia um clube português no Mundial) e o Dínamo Zagreb no D. Ao fim de três temporadas contavam os pontos: classificação no campeonato, taças, Europa, a nota que o jogo dava ao treinador e uns desafios diários pelo meio.
Só o vencedor de cada grupo seguia em frente. Aí a coisa mudava de figura: meias-finais e final a duas mãos em modo Fantasy Draft, com cada um a montar do zero um plantel de 25 jogadores com o mesmo orçamento.
Licá, o nosso homem em Liverpool
Daniel Almeida, o Licá para toda a gente, tinha 29 anos, é de Sesimbra e antes de trocar as chuteiras pelo teclado ainda jogou futebol federado. No sorteio calhou-lhe o Grupo B: o Brighton, na Premier League, contra a África do Sul, os Países Baixos, a Espanha e a Coreia do Sul. Não era propriamente um grupo fácil.
A primeira temporada foi de adaptação. Acabou em 5.º na liga, caiu na 5.ª eliminatória da FA Cup e à terceira na Taça da Liga, mas chegou às meias-finais da Liga Europa. Somou 65 pontos, com nota A do jogo.
Depois veio a segunda temporada, e que temporada. Licá pôs o Brighton a campeão da Premier League, ganhou a Taça da Liga e foi até às meias-finais da Liga dos Campeões. Foram 107 pontos, outra vez com nota A. Quem nunca sonhou com uma época destas num save?
A terceira temporada soube a pouco: 4.º lugar, a Community Shield no bolso, eliminação precoce na Taça da Liga e nota B. Deu 89 pontos, e num grupo tão apertado cada ponto contava.
| # | Treinador | País | T1 | T2 | T3 | Total |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Enzo Bento | África do Sul | 77 | 118 | 138 | 333 |
| 2 | Rowan van Leeuwen | Países Baixos | 81 | 90 | 118 | 289 |
| 3 | José Manuel Muñoz | Espanha | 67 | 108 | 113 | 288 |
| 4 | Daniel “Licá” Almeida | Portugal | 65 | 107 | 89 | 261 |
| 5 | Jay Ryung-huh | Coreia do Sul | 67 | 87 | 101 | 255 |
No fim, Portugal ficou em 4.º no grupo com 261 pontos. Ficou à frente da Coreia do Sul, mas longe do sul-africano Enzo Bento, que fez uma última época de 138 pontos e arrumou a questão. Não deu para a fase final, mas Licá saiu de Liverpool com um título inglês no currículo e, nas palavras dele, com a sensação de estar a sonhar acordado. Para uma estreia num Mundial, não está nada mal.
E o campeão do mundo é… a Indonésia
O último dia foi de emoções fortes. Na primeira meia-final, o indonésio Ichsan Taufiq empatou 2–2 com o inglês Arron Falloon e depois ganhou 3–1, 5–3 no total. Na outra, o alemão Sven Goly despachou Enzo Bento com um 4–0 logo a abrir e segurou um 1–1 na segunda mão.
A final não teve história. Taufiq ganhou a primeira mão por 3–0, com golos de Lookman, Füllkrug e Seiwald, fechou a segunda com um 5–2 e levou o título por 8–2 no total. Curiosamente, tinha chegado ali depois de ganhar o grupo ao comando do Sporting. Há sempre um pouco de Portugal nestas histórias.
Ichsan “Miracle” Taufiq, com o adjunto Manar Hidayat, é assim o primeiro campeão do mundo de Football Manager. E o feito ainda tem mais graça porque o jogo nem sequer existe em indonésio. Goly, que tinha feito a melhor fase de grupos de todos (425 pontos com o Yokohama), ficou com a prata.
O que achámos
Para uma primeira vez, correu mesmo bem. Ver o nosso jogo num palco a sério, com transmissão em direto, comentadores e lendas do futebol na sala, é algo que há uns anos parecia impossível. Pôr toda a gente do grupo a treinar o mesmo clube foi uma boa ideia, porque premeia quem é consistente e não quem tem sorte num jogo. O Fantasy Draft deu à fase final aquele nervoso miudinho dos jogos a eliminar.
Nem tudo foi perfeito. Três temporadas em três dias obrigam a simular a um ritmo que pouco tem a ver com a forma como a maioria de nós joga. A pontuação dada pela nota do treinador e pelos desafios diários também é difícil de acompanhar para quem está a ver. Mas fica uma certeza: o nível está ao nosso alcance. Quem põe o Brighton a campeão em Inglaterra sabe o que está a fazer.
Vai haver mais?
Tudo indica que sim. A FIFA e a Sports Interactive apresentaram este Mundial como o início de uma parceria no esports, mas ainda não há data nem formato para uma segunda edição. Assim que soubermos alguma coisa, contamos aqui.
Atualização (setembro de 2026): em 2025 não houve Mundial. Foi o ano em que o FM25 acabou por não sair. Em dezembro de 2025, a FIFA anunciou uma nova competição, a FIFAe Club World Cup 26 featuring Football Manager, jogada no FM26. Desta vez não são as seleções: são os clubes (profissionais, semiprofissionais e até amadores) que se inscrevem e lutam por um lugar através de qualificações online. Até ao momento desta atualização, a FIFA ainda não anunciou publicamente o local nem a data da fase final. Fica a pergunta: haverá algum clube português à altura?
Fontes: Wikipedia, RTP Arena, FourFourTwo, Esports News UK, FIFA.




