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«Estive no Football Manager»: o jornalista que foi à procura dos seus atributos

5 min de leitura

Esta é a história de um jornalista que, em miúdo, apareceu numa edição do Football Manager. Anos mais tarde, foi à procura de explicações para os atributos que lhe tinham dado. Contamo-la na primeira pessoa, como ele a contou.

Um guarda-redes no Lewes

Assinei pelo Lewes FC em 2008. O clube estava em plena ascensão: subida à Conference, uma bancada nova (paga com a venda dos melhores jogadores), um treinador novo para os sub-18, acabado de chegar do Brighton, e uma fornada de jovens cheia de talento. Talvez a melhor equipa de formação sem academia do sul de Inglaterra.

A maioria vinha das academias do Brighton, do Bournemouth e do Southampton, dispensados na passagem dos sub-16 para os sub-18. Outros tinham saído por vontade própria. Porque é que alguém recusava um contrato de sub-18 numa dessas academias? Contratos baixos, dormitórios nem sempre em boas condições e a obrigação de tirar um curso técnico de Desporto, em vez de continuar na escola ou ir para a universidade.

Alguns, como eu, vinham de clubes mais pequenos. Durante quatro anos passei por metade das academias do sudeste do país. Três dias por semana, a minha mãe ia buscar-me à escola, dava-me uma sandes, uma barra proteica e uma bebida energética, e lá íamos nós, horas de carro pelo litoral.

Era dispensado constantemente. No Portsmouth fui preterido por um argentino, no Charlton por um americano, no Fulham pelo guarda-redes dos sub-16 de Inglaterra e no Brighton por um rapaz com o dobro da minha altura (mas muito bom). No Lewes, fiquei.

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Viciado em Football Manager

Nessa altura, eu era um viciado em Football Manager. Por isso imaginem a minha cara quando descobri que estava no FM10. Um sorriso de orelha a orelha.

O que fiz primeiro? Contratei-me para o Manchester United. A direção «adorou»: um clube endividado a gastar tempo e dinheiro num jogador sem qualidade que ainda mandava o lendário Edwin van der Sar para o banco. Só não me despediram porque ganhei a Liga dos Campeões (sim, na final meti-me no banco).

Com os anos, deixei de ligar ao facto de ter estado no jogo, mas fiquei com vontade de perceber os dados estranhos que me tinham dado.

Havia vários erros: davam-me 1,88 m quando tenho 1,80 m, e o mês de nascimento estava errado. Nos atributos, era descrito como um guarda-redes excêntrico, com propensão para fazer coisas bizarras.

Algo não batia certo. O FM é conhecido pela qualidade do seu scouting: a Sky Sports usa-o para mostrar os pontos fortes das contratações das equipas inglesas, e vários clubes usam-no como complemento de informação para encontrar reforços. Então porque é que os meus dados estavam tão longe da realidade?

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Fui à procura de quem me avaliou

O contacto com um dos produtores do jogo não deu em nada. Pelos vistos, a pessoa que me avaliou já tinha saído da equipa de pesquisa, e não a queriam ou não a conseguiam contactar.

Mas consegui falar com Dean Gripton, uma verdadeira enciclopédia de futebol e «apenas» o responsável máximo pela pesquisa das principais divisões inglesas no Football Manager.

Muito simpático, o Dean disse-me que ainda podia tentar um regresso em grande aos relvados, mesmo perto dos 30.

«Todos os jogadores que alguma vez foram criados no FM ficam na base de dados, mas quem já não tem um papel ativo no futebol fica marcado para não ser extraído. Nunca apagamos perfis. Quem sabe se não voltam um dia como parte de uma equipa técnica, ou até como jogadores em divisões inferiores? O ID do teu perfil é 29038456 e foi atualizado pela última vez em 2014, provavelmente quando te marcaram para não seres extraído. No histórico aparecem as épocas de 2008 e 2009 no Lewes, com zero jogos e zero golos. Depois presumimos que saíste do clube.»

Brilhante. Mais uns factos cruéis sobre a minha carreira insignificante.

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Como funciona o scouting do FM

O trabalho de pesquisa do Football Manager é impressionante. Há 770 mil pessoas na base de dados, embora «só» 100 mil estejam ativas na última edição. As restantes estão marcadas para não serem extraídas.

O Dean coordena a pesquisa em Inglaterra, ou seja, uma enorme rede de observadores que seguem as mais variadas equipas inglesas (os campeonatos de solteiros e casados ficam de fora, claro) e atualizam os perfis dos jogadores ao longo do ano.

«Não são apenas fãs do jogo, são entusiastas das suas equipas. O Andrew Bennett, que infelizmente morreu há pouco tempo, era o historiador do Cambridge e também o seu investigador no jogo. O responsável pelo Chelsea é extremamente dedicado: vai a todos os jogos dos sub-18 e dos sub-23. Provavelmente interessa-se mais pelas promessas do que pela equipa principal. São todos voluntários. Fazem-no por amor ao futebol e ao Football Manager, são minuciosos e gostam de ter as equipas o mais atualizadas possível. E adoram estar atentos às promessas que vão explodir. Qual é o jogador de FM que, quando sai o jogo, não vai logo à procura dos wonderkids? É das partes mais emocionantes.»

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E os meus atributos?

E nas camadas jovens, onde é mais difícil ter observadores interessados? Os atributos são reais ou ficção? Basicamente, eu queria perceber como tinham sido feitos os meus.

«No teu caso não tens atributos nenhuns inseridos na base de dados, o que é muito comum em jovens de divisões inferiores. A excentricidade alta que viste no teu save foi um mero acaso. Se começasses outra carreira, os atributos seriam completamente diferentes, porque estão em branco e é o jogo que os gera. Infelizmente, não tiveste exposição suficiente para seres avaliado. Se tivesses jogado na equipa principal, a história seria outra.»

Eu ria-me enquanto falava com o Dean, mas por dentro o coração estava em pedaços. Uma sensação que conheço bem: achava que tinha conseguido alguma coisa e afinal sabia a falhanço. Entrei no Football Manager, mas os meus atributos nem sequer tinham sido avaliados.

Este jogo imita tão bem a realidade que acabou por estragar as minhas melhores memórias. E, tal como na realidade, estranhamente, acho que gosto disso.

E tu, conheces alguém que tenha aparecido no FM?

Fonte: adaptado da Eurogamer