Pesquisa Portuguesa na Imprensa: Carlos Bessa e Bruno Luis entrevistados no site oficial do Football Manager

Entrevistas aos Researchers – Portugal

Entrevista originalmente publicada no site oficial do Football Manager (The Byline – Extra Time: Interviews), a 23 de julho de 2020. Ler o original (em inglês).

A nossa série de entrevistas aos Head Researchers levou-nos a falar com pessoas que vivem e trabalham em três continentes e quatro países muito diferentes – África do Sul, Escócia, Suíça e Argentina. Desta vez, vamos até ao verdadeiro caldeirão futebolístico que é Portugal, para falar com o Carlos e o Bruno, que contribuem para a nossa vasta equipa de pesquisa há 16 anos combinados.

Carlos: O meu nome é Carlos Bessa e sou do Porto. Comecei a trabalhar na base de dados do Football Manager no Football Manager 2010, como assistente de researcher. Desde miúdo que joguei centenas de horas nos jogos anteriores, a começar em 2001 – é uma paixão que me acompanha quase a vida toda. Joguei todas as edições desde o FM10.

Bruno: Sou o Bruno Luis, de Lisboa. Quando era muito novo, ia de quinze em quinze dias, ao fim de semana, a casa do meu primo, onde tinham computadores. Passavam dias inteiros a jogar os jogos mais antigos, só com as divisões inglesas, e eu ficava ao lado deles a ver. Em 1999 tive o meu primeiro computador e finalmente pude começar a jogar o jogo de que tanto gostava. Desde então passei incontáveis horas a jogar a maioria dos FM e acabei por entrar na equipa de pesquisa em 2014.

Jogo de futebol em Portugal
Jogo em Portugal

Como é que se envolveram pela primeira vez na pesquisa para o Football Manager?

Carlos: Em cada save escrevia notas sobre atributos e movimentos para criar a minha própria “base de dados atualizada”. Em 2010 contactei o José Chieira, o antigo HR português, para oferecer a minha ajuda, ser mais ativo e ajudar a melhorar ainda mais a base de dados portuguesa. Ele aceitou rapidamente e, desde esse ano, tenho ajudado a equipa de pesquisa portuguesa. Na época 2015/2016, o José convidou o Bruno e eu para sermos os novos Head Researchers (HR) portugueses, devido à falta de tempo dele a par do seu trabalho como scout profissional.

Bruno: Tal como o Carlos, eu costumava criar a minha própria base de dados e publicá-la para a comunidade portuguesa, mas, ao contrário dele, nunca pensei realmente que houvesse a possibilidade de entrar na equipa de pesquisa. O meu caminho até lá foi bastante diferente.

Durante alguns anos, publicava todos os dias no fórum da SI todos os dados não subjetivos/factuais que encontrava incompletos na base de dados portuguesa, escrevendo as respetivas correções. Isto continuou até que o Dean Gripton (Senior Research Co-Ordinator / Head of English Research) me contactou para saber se teria interesse em ser Assistant Researcher (AR). Obviamente, a resposta foi sim. O passo seguinte foi falar com o José, a quem enviei o documento com 150 páginas de sugestões de ajustes e correções. Comecei a trabalhar com o terceiro escalão português e depois passei a ser AR do Louis Platt para África, ficando responsável por Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola e São Tomé. Pouco tempo depois, fui convidado para ser co-HR de Portugal, ao lado do Carlos.

Quantos jogos é preciso ver para ter uma boa leitura da capacidade de um jogador?

Carlos e Bruno: Depende do jogador. Normalmente são precisos três a cinco jogos, sobretudo em condições diferentes (clima, dimensões do campo, adeptos, qualidade do adversário, etc.), para conhecer bem a capacidade do jogador e o seu comportamento nos diferentes momentos do jogo (organização defensiva e ofensiva, transições defensivas e ofensivas e bolas paradas).

Ver jogadores pela televisão não nos dá a imagem completa, porque o foco está na bola; por isso precisamos de observar os jogadores “no local” para perceber como se comportam sem bola.

Quais são alguns dos atributos mais difíceis de avaliar?

Carlos e Bruno: Os atributos mentais. Além de serem os mais subjetivos, não se conseguem ver por inteiro em exibições ao vivo. Precisamos de acompanhar o jogador e as suas atitudes fora de campo para o conhecer a fundo, e isso demora muito mais do que os atributos que se podem observar num estádio e avaliar na sua totalidade.

Quão difícil é avaliar o potencial de um jogador?

Carlos e Bruno: É uma combinação de fatores, porque depende também de muitos pormenores fora de campo, como a família, a estabilidade emocional e o apoio, estar rodeado das pessoas certas na gestão da carreira e os treinadores com quem trabalham – vão dar-lhes uma oportunidade ou a formação não é uma prioridade/especialidade?

Ainda assim, cada pessoa é afetada de forma diferente por um acontecimento. Uns podem encará-lo como um desafio pessoal e superar-se, outros podem ser abalados por ele. Não existe uma ciência exata para prever a reação de cada pessoa e a forma como se desenvolve, mas perceber a sua mentalidade é um passo mais perto de acertar.

O vosso trabalho na equipa de pesquisa influencia a forma como jogam Football Manager?

Carlos: Como conhecemos grande parte da nossa base de dados, costumo jogar nos nossos escalões inferiores para encontrar algumas “surpresas” e explorar jogadores com menor reputação.

Conheço os jogadores badalados ou os jovens com elevado potencial, por isso quero evitá-los. A par disso, tento ter novas “experiências de treinador” noutras ligas. Adoro particularmente as mais exóticas.

Bruno: Não propriamente. Para ser sincero, nunca gostei muito de jogar com as melhores equipas do mundo. Sempre gostei de começar de baixo, sobretudo em ligas ou seleções que não conheço bem.

Obviamente, trabalhar como HR ajuda a saber que competências procurar ao contratar jogadores, mas na maior parte das vezes acabo por contratar jogadores de quem nunca ouvi falar e, quando chego ao “topo do mundo”, os wonderkids do início de cada edição já não são jovens nem desconhecidos.

Já alguma vez identificaram jogadores que depois tiveram sucesso?

Carlos e Bruno: Sendo Portugal uma nação que cultiva talento e exporta estrelas todos os anos para as melhores ligas, poderíamos facilmente atirar-vos dezenas de nomes. Mas, se tivermos em conta que 99% deles saem das camadas jovens de três equipas (Benfica, Sporting ou Porto), isso não exige tanta perícia para acertar, porque essas equipas precisam de continuar a formar jovens talentos para sobreviver e manter-se entre as melhores fora das grandes ligas europeias.

O Diogo Jota talvez seja o melhor jogador, fora dessas três equipas, de quem se previu um futuro brilhante e que correspondeu às expectativas.

Nota da redação: o Diogo Jota faleceu a 3 de julho de 2025. Esta entrevista foi dada em 2020.

Aos 18 anos, no Paços de Ferreira, era classificado como wonderkid, mas isso não lhe bastava. Como a maioria já sabe, é um fã assumido do FM e, por essa altura, falávamos muitas vezes com ele sobre o jogo, sobretudo sobre como queria que aumentássemos alguns dos seus atributos, porque alegava ser melhor do que aquilo.

Francisco Trincão, do Braga, é outro exemplo de um jogador português que classificámos como wonderkid ainda adolescente e que chegou agora a uma grande equipa europeia, o Barcelona. Temos expectativas muito altas para ele.

Quais são os desafios únicos de pesquisar em Portugal?

Carlos e Bruno: Conseguir researchers dedicados para a maioria das equipas. 90% dos adeptos de futebol em Portugal apoiam o SL Benfica, o Sporting CP ou o FC Porto e depois há o Vitória SC, o Sp. Braga e o FC Famalicão.

Se a isto juntarmos que muitas equipas do interior pertencem e são treinadas por pessoas mais velhas, que nem sempre usam as redes sociais, torna-se muito difícil receber informação sobre o que se passa por lá, sobretudo no que diz respeito aos seus quadros técnicos.

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