Nem sempre é um olheiro que encontra o próximo craque de uma seleção nacional. Às vezes é um jogador anónimo de Football Manager, sentado em casa.
Descobertos no jogo, não no terreno
Phil e James Younghusband eram dois irmãos ingleses das camadas jovens do Chelsea, com ascendência filipina pelo lado da mãe. Por volta de 2005, apareciam no Football Manager como talentos disponíveis para a seleção das Filipinas, os Azkals, então ainda um projeto sem qualquer relevância internacional.

Foi um jogador anónimo, nunca identificado publicamente, quem reparou nisso dentro do jogo e avisou a Federação Filipina de Futebol de que tinha dois jovens do Chelsea elegíveis para a seleção. A federação, apesar de a fonte ser “só um jogo”, decidiu arriscar e entrou em contacto com os irmãos. Ambos aceitaram o convite e estrearam-se pela seleção em 2006, tornando-se pioneiros de uma vaga de jogadores nascidos na Europa a vestir a camisola filipina.
Depois vieram os alemães
O caso dos Younghusband abriu a porta a uma head hunt ainda maior. Alfons Schunk, um alemão casado com uma filipina, organizou um estágio na Alemanha para reunir cerca de vinte jogadores bávaros e da Bundesliga com dupla cidadania filipina.
Seis deles acabariam por vestir a camisola dos Azkals: Stephan Schrock, que se tornaria capitão de equipa, Kevin Ingreso, John-Patrick Strauss, Patrick Reichelt e os irmãos Mike e Manuel Ott. Todos jogavam profissionalmente no Ceres-Negros, nas Filipinas, e rapidamente se tornaram figuras públicas no país. Schrock recorda bem o choque cultural: “éramos tratados como estrelas pop.” Chegou a contar um episódio caricato, em que a equipa teve de sair de uma Starbucks pela saída de emergência para escapar aos fãs.
Capitão, melhor marcador, tudo graças ao FM
O impacto dos dois irmãos ficou bem documentado nos anos seguintes. James tornou-se um médio dominante nos dois sentidos do campo, decisivo em bolas paradas. Phil consolidou-se como avançado, chegou a capitão da seleção e é, até hoje, o melhor marcador da história filipina, com 51 golos. Nenhum dos dois teria chegado lá sem aquele apontamento improvável numa base de dados de videojogo.
Juntos, os dois irmãos somaram mais de 200 internacionalizações e 60 golos pelas Filipinas. E não foram os únicos a ajudar a reerguer a seleção: dentro de portas, a federação também apostou em talentos locais como Emelio «Chieffy» Caligdong, Ian Araneta e o guarda-redes Louie Michael Casas.



Levaria ainda cinco anos até a seleção alcançar o primeiro grande resultado, as meias-finais da Taça AFF de 2010, mas a semente já estava plantada. Depois viriam mais duas presenças seguidas nas meias-finais (2012 e 2014) e a qualificação inédita para a Taça Asiática de 2019, apoiada também pela geração de jogadores germano-filipinos recrutada por Schunk.
Houve quem acusasse estes jogadores de serem “híbridos” com vantagem injusta. Schrock respondeu sem rodeios: “Ou tens sangue filipino ou não tens. Só queremos que nos chamem filipinos.”




