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Publicado em: 3 Setembro por: FMPortugal

Pesquisa Portuguesa na Imprensa: Coordenador Bruno Gens entrevistado para a Bola Na Rede

Bruno Gens Luís football manager
Bruno Gens Luís no Pacaembú
Todos nós que somos amantes do desporto-rei em algum momento da nossa vida passamos os nossos sonhos desportivos para a realidade virtual através do Football Manager, mas poucos terão pensado em todo o processo que está por detrás da detecção do talento e da seleção de atributos dadas aos jogadores neste jogo. O Bola Na Rede falou com um dos principais responsáveis por esse processo, Bruno Gens Luís, que se confessa um apaixonado pelo futebol.

Qual o teu percurso a nível académico?  Já tencionavas trabalhar na área do desporto?

Sempre foi um sonho meu trabalhar na área do desporto. Quem me conhece sabe perfeitamente que a minha maior paixão é o futebol, mas infelizmente, devido a limitações físicas e consequente recomendação médica, fui-me afastando dele e embarquei noutra área, economia, na qual sou licenciado. Mas um dos meus objectivos futuros é o de fazer uma pós-graduação em gestão desportiva.

Como é que chegas a Chief Scout de Portugal para o Football Manager?

Para ser sincero, foi um processo rápido mas trabalhoso. Comecei como um simples crítico da base de dados, que compilava erros e falhas da base de dados portuguesa no fórum da SI. Devido à minha insistência, fui convidado para integrar a equipa portuguesa, onde assumi a coordenação do antigo CNS. Posteriormente assumi a coordenação da pesquisa dos PALOP e pouco depois fui convidado pelo antigo coordenador, José Chieira, para o substituir na coordenação da pesquisa portuguesa, conjuntamente com o Carlos Bessa. Parece uma subida vertiginosa, mas o meu dia-a-dia era acordar, trabalhar e dormir.

Consegues explicar, resumidamente, para que as pessoas tenham uma noção de todo este processo, a seleção dos atributos de cada jogador e como conseguem obter um nível de fiabilidade elevado mesmo que sejam de equipas pouco conhecidas? 

Cada jogador é avaliado em dezenas de atributos, desde mentais a técnicos e físicos, com uma influência distinta para as diferentes posições no terreno. Tentamos fazer uma avaliação valorativa do jogador tendo em consideração o seu comportamento nos diferentes momentos do jogo. É algo complexo mas a fiabilidade consegue-se através da especialização de uma pessoa numa determinada equipa. A quantos mais jogos assiste dessa equipa, mais precisa será a avaliação dos seus jogadores.

Consideras a base de dados portuguesa uma das melhores do Football Manager? Achas que estamos a trabalhar bem nesse sentido em comparação com outros países? 

Modéstia à parte, sim, acho que é uma das melhores e mais fiáveis base de dados do Football Manager, mas obviamente erramos e temos falhas como todos; a observação não é uma ciência exacta. Ajuda ter uma grande legião de fãs e a divulgação do jogo em Portugal: devido a isto há mais pessoas a querer colaborar comparativamente com outros países, onde o jogo é pouco conhecido (como por exemplo a Argentina).

A equipa de observação para o Football Manager é composta por quantas pessoas? São todos voluntários? 

Todos voluntários, logo há sempre pessoas a entrar e sair. Por norma, a equipa portuguesa é composta por cerca de 50 pessoas, mas ao longo do ano chegam a ser por volta de 80 pessoas.

Já te aconteceu seres contactado por clubes para aconselhamento na contratação de jogadores? 

Sim, cada vez mais, especialmente de divisões inferiores, mas já fui contactado por clubes profissionais, incluindo os “grandes”. Chegou a um ponto em que eram tantas equipas/agentes/treinadores/directores que tive de dizer basta. Tempo e conhecimento são dinheiro e o scouting continua a ser desvalorizado por muita gente ligada ao futebol, por isso continuam a aparecer em Portugal aqueles jogadores sem qualidade alguma, colocados pelos agentes, impedindo assim a progressão de jovens talentos de divisões inferiores.

Ficas “orgulhoso” quando um jogador que foi sinalizado pela equipa de observação do Football Manager singra no futebol real? 

Obviamente, tal como qualquer observador fica contente quando um jogador recomendado por si singra na sua equipa e proporciona troféus e/ou uma avultada transferência que enche os cofres da sua equipa.

Consegues dar um exemplo específico de um jogador cujo talento tenha sido detectado primeiramente no Football Manager e mais tarde se tenha tornado num jogador de qualidade consensual?

Podia dar centenas de exemplos, mas os que mais me marcaram talvez sejam o Saviola, o Iniesta e o Rooney, que com 16 anos (ou menos?) eram craques no jogo. Com certeza que há outros exemplos, como o Kompany ou o Verratti, mas estes marcaram-me porque os contratava sempre para as minhas equipas.

Como é que reages às críticas muitas vezes feitas pelos fãs do jogo em relação a existir um favorecimento a determinada equipa nos atributos após todo o trabalho feito na construção da base de dados?

As avaliações são subjectivas; logo, é normal que cada pessoa tenha a sua própria opinião sobre determinado jogador. É possível ver-se bem quem são as pessoas com “clubite aguda” e quem realmente quer ajudar a melhorar a base de dados. Todas as críticas são bem vindas e analisadas por nós.

Consideras que estas criticas que existem são também reflexo de uma falta de cultura desportiva em Portugal?

90% das críticas são de pessoas a pedirem melhoramentos para o seu clube e a mandar abaixo os rivais; logo, pode dizer-se que sim. Infelizmente a ideia que se tem do adepto português é a de que ele gosta da sua equipa e não de futebol como desporto. Não se preocupam com o estado do futebol português, desde que a sua equipa ganhe, e quando perdem pontos atribuem a culpa ao árbitro em vez de mérito ao adversário. No Football Manager a situação é igual. se jogador x da equipa y é bom, então é devido ao facto de a equipa de pesquisa ser toda desse clube. Chegou ao ponto de um grupo de adeptos de um clube se juntar e enviar falsas queixas de favorecimento anonimamente à SI.

O que é que consideras que ainda pode ser feito, ou melhorado, na base de dados portuguesa para o Football Manager?

As camadas jovens ainda estão pouco exploradas fora dos grandes. Infelizmente grande parte dos colaboradores só assiste ao futebol sénior; logo, fica bastante complicado ter informação credível a nível de formação, e quem tem conhecimentos não quer colaborar sem compensação financeira.

Quando o jogo é finalmente lançado sentes uma sensação de alívio ou há ainda um longo trabalho pela frente?

A pesquisa nunca para, com a excepção de alguns dias entre a entrega e a nova distribuição de tarefas pelos researchers. Durante épocas festivas, por exemplo Natal e Ano Novo, também recolhemos os ficheiros e damos “folga” a todos.

Quando é que se começa a pensar no jogo seguinte?

Com anos de antecedência! Já se sabe que novidades queremos implementar em cada versão algumas edições antes de ela ser lançada. Obviamente nem sempre todas as novidades conseguem ser implementadas quando se quer, mas há sempre um plano futuro delineado com muita antecedência. Quanto à base de dados, começamos por volta de Março/Abril.

Entrando numa área mais pessoal, qual foi o jogo da saga CM/FM que pessoalmente te deu mais gozo jogar?

Tenho dois favoritos: 99/00 e 01/02. Mas o que joguei mais foi o CM2 95/96.
Bruno Gens Luís do Football Manager na Arena Corinthians, vulgo Itaquerão
Bruno Gens Luís na Arena Corinthians, vulgo Itaquerão

Consideras-te parte da geração marcada pelo sucesso do Tó Madeira?

Sinceramente não me marcou muito. Já jogava CM há muitos anos, mas acredito plenamente que o “erro” Tó Madeira serviu na perfeição como uma estratégia de marketing que atraiu imensas pessoas para o jogo. Todos queriam comprar o Tó Madeira do Gouveia e saber quem ele era na vida real. Eu ganhei muitos companheiros de jogos online graças a “ele”.

Pondo de lado o Bruno colaborador da Sports Interactive, e perguntando diretamente ao Bruno jogador de Football Manager, o que é que mudavas, aperfeiçoavas ou adicionarias ao jogo?

Mais ligas! Quantas mais melhor; sem ser necessário colocar patches não-oficiais. Sou daqueles que quando fazem um save metem ligas de todo o mundo, e vou rodando equipas de cada país. Também gostava de que fizessem uma versão “Presidente”, que te obrigaria a escolher um treinador para levar a tua equipa à glória. Claro que o desenrolar da época dependeria das dinâmicas Presidente-Treinador e Presidente-Plantel, a liberdade e espaço que darias ao treinador para tomar decisões e como ele reagiria à tua pouca/muita influência, aceitares ou não recomendações por parte dele e de elementos da estrutura sobre transferências/staff/melhoramento de infraestruturas e as suas reacções às tuas respostas, lidar com queixas e pressões de jogadores e agentes, motivar jogadores em alturas cruciais da época com prémios/palavras ou castigos, lidar com eleições e propostas de aquisição do clube por parte de outras pessoas, etc.. Há muita coisa gira que poderia ser implementada com esta versão. Relativamente ao que já existe: uma revolução no sistema de treinos.

Não achas que fará falta um grande concorrente do Football Manager, um pouco do que já acontece entre o FIFA e o PES, de maneira a “puxar” pela Sports Interactive, evitando a estagnação?

Toda a concorrência é bem-vinda, mas muito dificilmente haverá quem consiga concorrer com a SI neste momento. Começar do zero e concorrer com uma empresa com 25 anos de experiência no ramo e ramificada pelo mundo inteiro é bastante arriscado.

Reparei que durante o teu percurso na Sports Interactive detectaste muitos casos de jogadores que jogam ou jogaram em Portugal, oriundos de África, com idades falsas. Consegues encontrar explicação para que estes tipos de casos ainda suceda em pleno século XXI em Portugal?

Saber a razão pela qual os jogadores o fazem é fácil; tudo tem a ver com dinheiro. Jogadores de famílias pobres são seduzidos por agentes mal intencionados com sede de dinheiro, e aceitam adulterar o seu passaporte em troca de uma possibilidade de carreira num país europeu. Infelizmente muitos deles são abandonados mal chegam a Portugal e ficam por si. A Federação Portuguesa, com a ajuda do SEF, é que deveria apertar o cerco a estas situações, mas está a acontecer o contrário. Cada vez entram mais.

Os colaboradores da Sports Interactive recebem algum tipo de privilégio por colaborarem na elaboração da base de dados do jogo? É uma colaboração curricular?

Sim, é uma colaboração apenas curricular, com oferta de uma cópia do jogo. Mas tem aberto portas a muitos deles, que foram abordados para integrar departamentos de observação de variadas equipas espalhadas pelo país.

Haverá certamente poucas pessoas que conheçam a realidade de campo do nosso futebol mais amador como tu conheces. Qual é a tua opinião sobre o atual estado do futebol português no seu lado mais amador?

Há muito talento escondido, tapado por estrangeiros sem qualidade que vão aparecendo a cada abertura de mercado, a jogarem em competições pessimamente pensadas pela Federação Portuguesa de Futebol, que dão origem à desmotivação dos mesmos e a um precoce abandono do futebol. São raras as equipas profissionais abaixo da segunda liga; logo, os salários são baixos, o que faz com que os jogadores tenham de trabalhar para se sustentar.  As prioridades passam a ser outras e o futebol fica em segundo ou mesmo terceiro plano, o que causa a estagnação do desenvolvimento do jogador, que tem como consequência a desmotivação e em muitos casos o abandono da actividade.

Encontras explicação para a falta de adeptos nos estádios portugueses?

Voltamos novamente à questão da falta de cultura desportiva em Portugal. O adepto português gosta de vencer; logo, é adepto das equipas que mais vencem, isto é, dos três grandes. Por outro lado, os presidentes e a restante estrutura dos clubes não sabem promover as suas equipas e continuam com a ideia de que é através de preços altos que se consegue receita nos jogos, para compensar a falta de espectadores. Esquecem-se de que a falta de espectadores é causada por esse mesmo motivo, os altos preços. Os horários dos jogos também não ajudam.

E qual é a tua opinião sobre o atual estado do futebol português profissional?

Vergonhoso, incendiado fora de campo por diretores/presidentes de três equipas que transportam o ódio para os adeptos. A comunicação social e os programas desportivos estão ao mesmo nível, por isso não assisto a programas desportivos nem leio comentários/artigos dessas pessoas.

Destacarias algum clube ou alguma pessoa que te tenha marcado ao longo do teu percurso como Chief Scout?

Três. O Sérgio Bóris, que era o treinador do Cova da Piedade quando o contactei, foi a primeira pessoa do mundo do futebol com quem falei depois de assumir o cargo e foi cinco estrelas comigo, influenciando-me desde então a tornar-me sócio do clube e a assistir aos jogos sempre que possível. O Fábio Martins, que apesar de não conhecer pessoalmente vai partilhando comigo experiências sobre os seus saves, tem sempre um excelente sentido de humor, e eu lá o vou “picando” com ameaças de subir e descer atributos consoante as exibições dele nos jogos, na vida real. Tudo na brincadeira. E o Pedro Solá, actual treinador do Marinhense, um estudioso do futebol, muito culto, com quem estou em constante contacto e sempre disposto a trocar ideias.

Qualquer jogador de FM reconhecerá o teu nome mais até pelo facto de “seres” um regen com muito potencial que aparece em praticamente todos os saves do que propriamente como Chief Scout da BD em Portugal. O que é que sentes pessoalmente ao ver um jogador com o teu nome e os teus dados singrar no jogo?

É extremamente engraçado! Há cerca de um ano, experimentei escrever o meu nome no Google e encontrei variadas histórias e imagens de pessoas de variadas nacionalidades a jogarem com o meu regen e a falarem sobre os seus seus feitos com ele nas suas equipas. Já vi saves em que não passei das regionais e outros a ser o melhor jogador do mundo. Muitos jogadores de FM portugueses, que já sabem quem eu sou, costumam meter conversa comigo e detalhar a evolução do meu regen. Por outro lado, também já fui insultado por pensarem que eu sobrevalorizei esse meu regen, não sabendo eles que não tenho qualquer influência sobre a sua qualidade (aleatória em cada jogo que se inicia).

Finalizando a entrevista com uma pergunta pessoal, quais são os teus planos para o futuro? Planeias continuar a ser o Chief Scout da Sports Interactive em Portugal?

Enquanto for possível conciliar com a vida de scout na vida real, continuarei com todo o gosto, mesmo se for obrigado a optar por um clube e o FM. Tudo dependerá do projecto do clube. Até agora nunca me colocaram entraves. Entrevista originalmente publicada em Bola Na Rede

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