Há quem troque de emprego, mude de casa ou discuta com a família por causa de futebol. E há quem quase perca um casamento só por causa de um jogo de computador.
O livro que pôs nome à obsessão
Em 2013, para assinalar os 20 anos do jogo, Iain Macintosh, Kenny Millar e Neil White lançaram o livro “Football Manager Stole My Life: 20 Years of Beautiful Obsession”. O título diz tudo: uma “bela obsessão” que já valeu empregos reais a treinadores de bancada, notoriedade a jogadores obscuros e, muitas vezes, discussões sérias lá em casa.

O cantor britânico Robbie Williams tornou-se um dos casos mais citados de sempre. Em declarações públicas que ficaram famosas, confessou ter voltado a ficar viciado depois de ter partido o disco do jogo por achar que já tinha passado dos limites: “Avisaram a Ayda do que ia acontecer mas acho que ela não estava preparada… Mas dois dias depois encomendei outra vez o jogo na Amazon… A Ayda vai delirar.”
Uma lua de mel a ver a segunda divisão búlgara
No livro, os autores reúnem casos ainda mais extremos. Há o relato de um adepto que marcou a lua de mel na Bulgária só para poder ver ao vivo os jogos do PFC Nesebar, da segunda divisão búlgara, simplesmente porque era a equipa que geria no jogo.
Noutro caso, a mulher de um jogador compulsivo escondeu-lhe o CD do jogo por duas vezes, acusando-o de “gostar mais do jogo do que dela”. Acabou em divórcio. Ironia das ironias: com o dinheiro que passou a poupar na renda de casa, ele comprou um computador novo e a versão mais recente do Football Manager. A namorada seguinte também não gostou nada e começou, ela própria, a esconder-lhe o jogo, porque a monopolização do computador a impedia de jogar Farmville.
“Eu ou o CM”
Em Portugal, José Chieira, coordenador de pesquisa da Sports Interactive desde 1994, contou ao Público um episódio que resume bem o dilema. Um colaborador seu fazia uma cobertura exemplar das divisões inferiores portuguesas, até arranjar namorada. “Recordo-me da vida dissimulada que ele levava porque a convivência com o CM não era fácil. Finalmente, chegou aquele momento da verdade: ‘Eu ou o CM’. Pela forma como nos comunicou a decisão, literalmente em lágrimas, percebi logo que escolhera a vida de casado.”
Pedro Torrié, informático portuense que acompanhou todas as versões desde o CM1, ainda em disquetes, teve mais sorte: “Até a namorada joga, vício a dobrar cá em casa.” Mas admite que os fins de tarde entre amigos, com jantar incluído a meio dos jogos, se estendiam “quase até de manhã. E isto era durante o ano letivo.”
Os 35 divórcios que ninguém consegue confirmar
Circula desde então um número amplamente repetido, mas que nenhuma fonte oficial confirma: o Football Manager já teria sido citado em pelo menos 35 processos de divórcio só em Inglaterra. Verdadeiro ou exagerado, o número tornou-se parte do folclore à volta do jogo, tal como a mensagem de aviso que o próprio FM mostra a quem joga horas a fio: “Lembre-se de telefonar para o seu emprego a prolongar a baixa por doença.”

Mais de uma década depois deste artigo original, o aviso continua atual. Para quem está prestes a abrir a nova edição e promete a si mesmo “desta vez vou controlar-me”, a história ensina uma coisa: o Football Manager não tem fim, e é exatamente isso que o torna perigoso.




